Lógica na Linguística
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A relação entre lógica e linguística é profunda e multifacetada. A lógica formal fornece ferramentas para analisar a estrutura e o significado da linguagem natural, enquanto fenômenos da linguagem natural desafiam e estendem sistemas lógicos formais.
Desde semântica formal até linguística computacional, métodos lógicos iluminam como a linguagem transmite significado, como sentenças se combinam para formar pensamentos complexos e como podemos construir sistemas computacionais que entendem linguagem.
Este guia explora a aplicação da lógica à análise linguística, desde semântica de condições de verdade até processamento de linguagem natural, mostrando como o formalismo lógico nos ajuda a entender a natureza sistemática da linguagem humana.
Semântica Formal
A semântica formal usa lógica e matemática para modelar como expressões linguísticas obtêm seus significados. O objetivo é fornecer descrições precisas e composicionais de significado que expliquem como o significado da sentença surge do significado das palavras e da estrutura sintática.
Diferentes estruturas semânticas fazem diferentes suposições sobre a natureza do significado, mas todas dependem fundamentalmente de ferramentas lógicas para tornar relações de significado explícitas e testáveis.
Semântica de Condições de Verdade
O significado de uma sentença é identificado com suas condições de verdade—as condições sob as quais seria verdadeira. 'A neve é branca' significa que a neve é branca. A semântica lógica fornece uma maneira sistemática de computar condições de verdade.
Composicionalidade (Princípio de Frege)
O significado de uma expressão complexa é determinado pelos significados de suas partes e como são combinadas. Este princípio permite que conhecimento linguístico finito produza sentenças infinitas—uma propriedade central da linguagem humana.
Semântica Modelo-Teórica
Significados são definidos relativamente a modelos—estruturas matemáticas especificando o que existe e quais propriedades os objetos têm. Uma sentença é verdadeira em um modelo se o modelo satisfaz suas condições de verdade.
Semântica de Mundos Possíveis
Estende a semântica modelo-teórica para lidar com modais, condicionais e contextos intensionais. O significado de 'Pode chover' envolve quantificar sobre mundos possíveis onde chove.
Semântica Situacional
Em vez de avaliar sentenças relativamente a mundos inteiros, usa situações parciais—partes da realidade. Aborda problemas com semântica de mundos possíveis para certos fenômenos linguísticos.
Semântica Dinâmica
Trata significado como potencial de mudança de contexto em vez de condições de verdade. O significado de 'Um homem entra. Ele senta' envolve como 'um homem' introduz um referente discursivo acessível a 'ele'.
Quantificação na Linguagem Natural
A linguagem natural tem estrutura quantificacional rica que se estende além do simples ∀ e ∃. A teoria de quantificadores generalizados fornece ferramentas lógicas para analisar essa complexidade.
Quantificadores Universais
Palavras como 'todo', 'cada', 'qualquer' expressam quantificação universal, mas com diferenças sutis em significado e distribuição sintática. 'Todo estudante passou' ≈ ∀x(estudante(x) → passou(x)).
Quantificadores Existenciais
'Algum', 'um', 'vários' expressam quantificação existencial. 'Um estudante passou' ≈ ∃x(estudante(x) ∧ passou(x)). Note que 'algum' carrega implicatura escalar (não todos).
Quantificadores Generalizados
'A maioria', 'poucos', 'muitos', 'vários' não se reduzem a ∀ ou ∃. A teoria de quantificadores generalizados os trata como relações entre conjuntos: 'A maioria dos estudantes passou' significa |estudantes ∩ passou| > |estudantes ∩ ¬passou|.
Ambiguidade de Escopo de Quantificadores
'Todo mundo ama alguém' é ambíguo: ∀x∃y(ama(x,y)) ('todo mundo tem algum amado') vs ∃y∀x(ama(x,y)) ('há alguém que todo mundo ama'). O escopo determina a estrutura lógica.
Sentenças de Burro e Anáfora
'Todo fazendeiro que possui um burro o espanca' apresenta desafios. A que 'o' se refere? Qual é o escopo de 'um burro'? Semântica dinâmica e teoria de representação de discurso abordam esses enigmas.
Forma Lógica
Forma lógica (FL) é a estrutura sintática abstrata que determina interpretação semântica. Frequentemente é distinta da estrutura sintática de superfície.
Extrair forma lógica de sentenças de linguagem natural revela complexidade oculta e explica propriedades semânticas como ambiguidade, implicação e anomalia.
Estrutura Profunda vs Estrutura de Superfície
A forma de superfície 'O que João comeu?' e forma profunda/lógica onde 'o que' se origina como objeto de 'comeu'. Operações de movimento mapeiam entre superfície e forma lógica.
Cálculo Lambda e Ligação de Variáveis
Abstração lambda (λx.P(x)) cria funções a partir de fórmulas. Essencial para semântica composicional: 'caminha' pode denotar λx.caminha(x), que se combina com 'João' para produzir caminha(joão).
Teoria dos Tipos (Gramática de Montague)
Richard Montague usou cálculo lambda tipado para modelar composicionalidade. Cada expressão tem um tipo (e para entidades, t para valores de verdade, etc.), e combinação respeita restrições de tipo.
Gramática Categorial
Categorias sintáticas são tipos lógicos. Um verbo transitivo tem tipo (NP\S)/NP—combina com NP objeto à direita e NP sujeito à esquerda para formar sentença S. Sintaxe espelha semântica.
Pressuposição e Implicatura
Nem todos os aspectos do significado são condições de verdade. Pressuposições e implicaturas adicionam camadas de significado que a semântica formal deve explicar usando ferramentas lógicas.
Pressuposição Semântica
'O rei da França é calvo' pressupõe que a França tem um rei. Tanto a sentença quanto sua negação carregam essa pressuposição—ela sobrevive à negação e questionamento.
Pressuposição Pragmática
Pressuposições dependem do contexto e suposições do falante. 'Até João veio' pressupõe que outros vieram e que João era improvável de vir. Cancelável em certos contextos.
Projeção de Pressuposição
Como pressuposições de partes se projetam em pressuposições de todos. 'Se a França tem um rei, o rei da França é calvo' herda pressuposição diferentemente da sentença simples.
Implicatura Griceana
H.P. Grice distinguiu o que é dito (significado de condições de verdade) do que é implicado (implicatura conversacional). 'Alguns estudantes passaram' implica (nem todos passaram) pela máxima de quantidade.
Implicatura Escalar
Uso de termo mais fraco em uma escala (<todos, a maioria, muitos, alguns, nenhum>) implica a negação de alternativas mais fortes. Pragmática formal usa lógica para modelar essas inferências.
Modalidade na Linguagem
Linguagens naturais expressam necessidade, possibilidade, obrigação e permissão através de verbos modais e outros dispositivos. A lógica modal fornece ferramentas para analisar significado modal.
Modais Epistêmicos
'Deve', 'pode', 'poderia', 'talvez' expressam estado epistêmico do falante. 'Deve estar chovendo' significa que o falante infere chuva da evidência. Analisado usando lógica modal e mundos possíveis.
Modais Deônticos
'Deveria', 'deve', 'pode' expressam obrigação e permissão. 'Você deveria sair' impõe obrigação. Lógica deôntica modela esses significados normativos.
Modais Dinâmicos
'Pode', 'capaz de' expressam habilidade ou propriedades disposicionais. 'João pode nadar' atribui habilidade de natação—um sabor modal diferente de epistêmico ou deôntico.
Evidencialidade
Algumas línguas marcam gramaticalmente a fonte de informação (observação direta, inferência, boato). Lógica epistêmica estendida com operadores evidenciais modela esta categoria semântica.
Base Modal e Fonte de Ordenação
Análise de Kratzer: modais quantificam sobre mundos possíveis restritos por base modal (mundos contextualmente relevantes) e ordenados por fonte de ordenação (o que é ideal/normal). Fornece análise unificada de variedades modais.
Negação
A negação na linguagem natural é mais complexa que NÃO lógico. Escopo, polaridade e efeitos pragmáticos criam padrões ricos que requerem análise lógica sofisticada.
Negação Sentencial vs Negação de Constituinte
'João não saiu' (negação sentencial: ¬saiu(joão)) vs 'Não João saiu' (negação de constituinte: foca no sujeito). Escopo lógico e foco determinam interpretação.
Itens de Polaridade Negativa
Itens como 'nenhum', 'jamais', 'ainda' requerem contextos descendentes. 'Eu não vi ninguém' está correto; *'Eu vi ninguém' está errado. Requer caracterização lógica de ambientes licenciadores.
Dupla Negação e Concordância Negativa
Na lógica, ¬¬P = P. Algumas línguas (francês, espanhol) usam concordância negativa onde múltiplas negativas expressam negação única: 'Je ne vois personne' (Eu não vejo ninguém = Eu vejo ninguém).
Negação Metalinguística
'Eu não peguei dois coelhos; eu peguei três' nega a implicatura, não o conteúdo de condições de verdade. Mostra que a negação pode visar aspectos não condicionais de verdade do significado.
Aplicações Computacionais
A lógica formal permite processamento computacional de linguagem natural. Desde análise semântica até resposta a perguntas, representações lógicas conectam análise linguística e raciocínio automatizado.
PLN moderna usa cada vez mais métodos baseados em lógica junto com abordagens estatísticas, especialmente para tarefas que requerem raciocínio preciso e compreensão composicional.
Processamento de Linguagem Natural
A linguística computacional usa formalismos lógicos para representar significado, permitindo que máquinas entendam e gerem linguagem. Análise semântica converte sentenças em formas lógicas para raciocínio automatizado.
Análise Semântica
Converter automaticamente sentenças em representações semânticas formais (lógica de primeira ordem, cálculo lambda, SQL). Permite resposta a perguntas, consulta a banco de dados e busca semântica.
Sistemas de Resposta a Perguntas
Sistemas como IBM Watson usam inferência lógica sobre bases de conhecimento. Perguntas são analisadas em consultas lógicas, respondidas por raciocínio sobre representações lógicas de conhecimento.
Implicação Textual
Determinar se texto T implica hipótese H. 'João comprou um carro' implica 'João possui um veículo'. Requer inferência lógica sobre representações semânticas.
Formalismos Gramaticais
- Gramáticas Livres de Contexto: Formalismo clássico com fundamentos lógicos na teoria de linguagens formais
- Gramática Tipo-Lógica: Usa cálculo lambda tipado; correspondência sintaxe-semântica via isomorfismo de Curry-Howard
- HPSG (Gramática de Estrutura de Frase Dirigida por Núcleo): Estruturas de características com restrições lógicas
- Sintaxe Minimalista: Deriva forma lógica através de operações sintáticas como Merge e Move